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Cristina Bicalho

Escolhi o sobrenome de mamãe como meu nome artístico. Esse gesto de amor que imprimi nas minhas obras, por eu não querer assinar o nome de meu avô, significa a parcela de liberdade que cultivava no meu íntimo como se fosse a minha marca, e que ninguém me podia tirar. Era a maneira que eu encontrava de pôr o melhor de mim em algo que pudesse representar um gesto espontâneo de liberdade. Me lembro quando ganhei meu primeiro livro de arte: Auto retratos de Van Gogh em 1960. Me apaixonei! Adorava desenhar retratos. Como autodidata, dei aulas de pintura no porão de minha casa.

Sou muito simples, bem na minha. Tento ser a mais verdadeira possível. Acho que na vida todos aprendemos uns com os outros. Gosto de sinceridade e paz, de respeitar e ser respeitada. Respeito muito as pessoas e seus limites e, me adapto bem à qualquer pessoa e à qualquer lugar. Gosto de brindar a vida, a felicidade, a saude... Minha alimentação tem tendencia vegetariana.

Sou, abençoada por Deus. Estou aberta ao novo, sou curiosa, que eu penso ser uma característica do verdadeiro artista e tentar algo diferente, seja qual for o resultado obtido, apenas irá acrescentar conhecimento e discernimento mesmo a um artista experiente.

Procuro a verdade, que no fundo, é o belo. Às vezes me pergunto por que ainda se faz pintura. Tudo o que se pode chamar novo ou moderno ou contemporâneo está contra ela. A tecnologia não consegue reproduzi-la direito, é frágil, limitada e estetizante; em um mundo de bilhões de pessoas ainda tem de ser vista no original, alguns privilegiados por vez. A estas características soma-se o mercantilismo que se alimenta do mito e vice-versa. E continuam pintando. Fazemos hoje o mesmo que o pintor das cavernas fazia, quatrocentos séculos atrás. Mesmos gestos, mesma técnica, mesma escola, mesmos problemas. Até o público é parecido. Se tudo mudou, por que ela não? Poderia fazer fotografias ou vídeos ou performances, enfim, coisas "modernas"? A resposta me parece estar na palavra "narrativa". A pintura é a única forma de arte onde se aprende o total da obra, instantaneamente. Filmes, livros, danças, peças de teatro, músicas, todos têm um começo, um meio e um fim, um caminho que o espectador é obrigado a percorrer. Independente de variações técnicas, chamo de pintura a fixação de uma imagem sobre uma superfície. Mesmo outras artes plásticas incorporam um elemento de leitura narrativa; arquitetura, escultura, instalação são apreendidas como uma série de pontos de vista aleatórios, discretos no tempo _ são narrativas sem roteiro fixo, e a fotografia é sempre um instante de um tempo que flui. A leitura das formas narrativas é sempre metaforicamente, da esquerda para a direita, um movimento paralelo à página, à tela do cinema, ao desenrolar do tempo. Mas a leitura de uma pintura é de fora para dentro, "perpendicular" à superfície pintada. De cada vez o espectador vê tudo, de uma vez. A cada nova visão esse tudo se aprofunda, indefinidamente. O tempo, dizem os cientistas, foi uma invenção engenhosa da natureza para que tudo não acontecesse de uma vez. Mas a pintura é estar à parte do tempo. Diz-se que a pintura é coisa para aqueles que já perceberam como a vida é curta e frágil e que a única luta real é contra o tempo. Hoje sei que todas as narrativas acabam um dia e nos deixam um sentido de mortalidade. Aí fui ser pintora, como tantos antes de mim, para tentar viver para dentro e para sempre.